3 de jan. de 2012

A Música, a Amnésia e o Amor!



Quero compartilhar com voces hoje, uma Linda historia que tem 3 grandes morais :

- 1 – Nunca désista
- 2 – O amor pode superar qualquer coisa
- 3 – A musica tem poder

Nesta historia onde citarei fragmentos de um livro escrito por Oliver Sacks – Alucinações Musicais - conta-se a historia de um homem chamado Clive, musico promissor de 30 anos atrás que em função da mais severa amnésia registrada na historia, perdeu-se e encontrou-se graças ao amor e à musica.
De repente, logo apos seu casamento com Deborah, Clive foi acometido por uma encefalite herpetica que afetou drasticamente sua capacidade de reter memoria. Sua memoria tinha a duração de um piscar de olhos.
Ficou internado durante 6 anos e meio num hospital psiquiatrico e logo que desistiram de sua cura, sua esposa com muito esforço conseguiu transferi-lo para uma clinica especializada onde ficaria os proximos 20 anos. Através de seu amor à musica e do amor de sua esposa, foi capaz de transcender sua agonia e encontrar uma forma inacreditável de viver, mesmo que todo o seu passado estivesse perdido, seu futuro e até mesmo o tempo presente, a música, por sua complexidade, permaneceu arraigada ao seu inconsciente e o amor, pela profundidade, manteve-se como sempre, lindo e inexplicável.

Em uma das muitas vezes em que Clive foi ouvido por psiquiatras ele disse :

 “Você consegue imaginar uma noite com cinco anos de duração? Sem sonhar, sem acordar, sem tocar, sem sentir gosto, sem sentir cheiro, sem ver , sem som, sem ouvir, sem absolutamente nada. É como estar morto. Cheguei à conclusão de que eu estava morto”. A única ocasião em que ele se sentia vivo era quando Deborah o visitava. Mas no momento em que ela ia embora, ele recaia no desespero, e quando ela chegava em casa, dez ou quinze minutos depois, encontrava repetidas mensagens de Clive na secretaria eletrônica: “Querida, por favor, venha me visitar, faz séculos que não a vejo. Por favor, voe para ca na velocidade da luz”. (A memoir of Love and amnésia).

Para termos uma idéia da severidade da amnésia de Clive, transcrevo abaixo um trecho do seu diário:

“Estou acordado”ou “estou consciente”,  “14:10: desta vez estou acordado mesmo. 14:14 desta vez finalmente acordado. 14:35 desta vez, completamente acordado” juntamente com negações dessas afirmações: “às 21:40 acordei pela primeira vez, apesar das minhas afirmações anteriores”. Isso também era depois riscado e seguido por “Eu estava totalmente consciente às 22:35, e desperto pela primeira vez em muitas, muitas semanas”.
Esse diário angustiante, vazio de qualquer outra coisa alem dessas veementes declarações e negações destinadas a afirmar a existência e a continuidade, mas contradizendo-as sempre, tornava a ser preenchido a cada novo dia, e logo acumulou centenas de paginas quase idênticas. Era um aterrador e pungente testamento do estado mental de Clive, de sua desorientação nos anos que se seguiram à sua amnésia – uma agonia sem fim (palavras de Deborah – sua esposa).


·      Clive e Deborah eram recém-casados na época em que ele teve encefalite , e tinham estado intensamente apaixonados por anos antes da doença. A longa e apaixonada relação de Clive com Deborah, uma relação que começou muito antes de ele ser acometido pela encefalite e que, em parte, girou em torno do amor comum dos dois pela musica, ficou gravada nele em áreas do seu cérebro não afetadas pela encefalite – tão profundamente que sua amnésia, a mais severa já registrada, não pode erradica-la. (Oliver Sacks)

Hoje, onde os relacionamento se dissolvem tão rapidamente, onde o amor resume-se a quem fala mais alto, a quem manipula melhor, a quem está melhor saciado... encontramos este milagre, que não é de hoje, mas que perdura até hoje. Um amor inexplicável, nutrido apenas pela memória que foi perdida e pela musica que se encontrava nos dois.

·      Outro milagre foi a descoberta feita por Deborah quando Clive ainda estava no hospital:
o    “Peguei algumas partituras e as segurei abertas para Clive ver. Comecei a cantar um dos versos. Ele viu os versos do tenor e cantou comigo. Tínhamos cantado mais ou menos um compasso quando de repente me dei conta do que estava acontecendo. Ele ainda era capaz de ler musica. Ele estava cantando. Sua conversa podia ser uma confusão que ninguém conseguia entender, mas seu cérebro ainda tinha capacidade para a musica... Quando ele chegou ao fim do verso eu o abracei e cobri seu rosto de beijos.
o   Clive podia sentar-se ao órgão e tocar com as duas mãos no teclado, mudar os registros e isso com os pés no pedal, como se fosse mais fácil do que andar de bicicleta. Subitamente, tínhamos um lugar pra estar juntos, onde podíamos criar nosso próprio mundo fora daquele hospital. Nossos amigos vinham para cantar. Deixei uma pilha de partituras perto da cama, e os visitantes traziam outras musicas.
o   É na familiaridade de Clive com a musica e com seu amor por mim que ele transcende sua amnésia e encontra continuidade – não a fusão linear do momento apos momento, não uma continuidade baseada em alguma estrutura ou informação autobiografica, mas é onde Clive, como qualquer um de nos, esta finalmente onde ele é quem é”. (A memoir of Love and amnésia).
o    

Imaginemos quantas pessoas aconselharam Deborah a desistir, a seguir sua vida, a casar de novo, a deixar seu esposo infinitamente internado e cuidar dos filhos que ainda eram pequenos... Imaginemos quantas vezes ela questionou sua própria sanidade em continuar acreditando na melhora de seu esposo...
Clive e Deborah continuam muito apaixonados um pelo outro, apesar da amnésia e da inexplicabilidade do fato, da improbabilidade da musica renascer num cérebro inexato, apesar da incredulidade humana o amor continua, através de outro amor... o amor à musica.

Clive foi assunto de um documentário filmado por  Jonathan Miller em 1986 – Prisioner of consciousness (Prisioneiro da Consciência), do livro escrito por sua esposa - A memoir of Love and amnésia (Memórias de Amor e amnésia) e de incontáveis artigos científicos.


http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=WmzU47i2xgw

19 de set. de 2011

O que é apoio pra você?




Morri de dar risada, quando ouvi isso.
Eu estava num restaurante com uns amigos e de repente saiu essa frase. Violino 1 e Violino 2, falando mal de cantores, eles gargalhavam! A história era a seguinte: o Violino 1 estava em uma padaria próxima a uma tradicional Escola Municipal de Música aqui em São Paulo, quando ouviu duas cantoras com o tom de voz aflito... parou pra prestar atenção na conversa das duas e ouviu a seguinte frase:
O que é apoio pra você?

Eu logo tomei as dores das cantoras e já ia começar uma longa discussão quando me lembrei que essa é realmente uma deficiência no aprendizado dos cantores.
Por isso vou aproveitar que hoje fiz uma excelente prova de Anatomia e vou explicar o fenômeno do apoio aliado ao fenômeno da respiração.

Sempre vemos nos desenhos de anatomia o diafragma como uma fina membrana que recobre uma parte da caixa torácica. Isso é um grande erro para nós cantores, que somos acostumados a imaginar as coisas e estamos imaginando o diafragma errado, até subestimando muitas vezes a importância deste músculo.

O diafragma é um dos músculos mais complexos do nosso corpo, vou tentar não me empolgar aqui e exagerar nos termos técnicos, embora seja muito difícil, já que eu amo o diafragma.


Ok, eu já disse que ele é complexo, mas não expliquei a causa: eu gosto muito desse músculo porque ele  nunca se cansa, trabalha ininterruptamente e a gente nunca sente dor no diafragma!
Ele é responsável por até 70% da respiração, tem o formato de uma saia de frente curta e cauda longa ou de um guarda chuva, para os mais práticos. Ocupa a parte inferior da cavidade torácica, não é fino como se imagina e durante a inspiração normal ele se abaixa em torno de 1cm, porém durante a inspiração forçada, a que realizamos durante o canto, ele  abaixa até 10cm!!!
Isso é maravilhoso! Gente! Isso é o apoio! Se enquanto você está cantando não há sensação alguma do abaixamento do seu diafragma, você está cantando pela graça de Deus!

Tá... Mas que sensação eu devo ter, Natália? Você deve sentir uma contração moderada na região pélvica e somente lá! Nada de endurecer o abdômen, o tórax ou apertar o bumbum... Isso não é apoio, é recurso! Que uso muito, inclusive.

Outra coisa, existem exercícios que ajudam a perceber e até voluntariar o diafragma. Daí você vai me dizer: mas o diafragma é um musculo involuntário! Verdade! Pra explicar meu ponto vou dar exemplo de outro importante músculo involuntário: o coração. Ele fica batendo, batendo e ninguém manda nele, né? Errado! E o profissional da Yoga que diminui o ritmo do coração pra meditar? Isso é fato, não é força de vontade.

Podemos fazer o mesmo com o diafragma. Com a quantidade certa de força nas regiões pélvicas (as que seguram o xixi), podemos controlar a velocidade com a qual o diafragma volta à sua posição de repouso. Isso é apoiar. O estrito controle da saída de ar mediante contração dos músculos pélvicos. (Segue um link  que mostra a mecânica do Diafragma)


Mecânica da Respiração - Diafragma

Pra que o Diafragma seja utilizado em toda a sua magnitude é necessário que a caixa torácica esteja bem elevada, que os músculos Intercostais externos e os auxiliares do abdômen estejam em sua máxima utilização.
Pra quê?
Ora, pra que suas costelas deixem de comprimir o pulmão e ele possa ser utilizado também em toda a sua potência e você possa cantar com conforto!
O que é cantar com conforto?
Você, Soprano I, minha amiga de todas as horas, imagine-se sentada na primeira fileira do coro que você canta, apoiada, com a caixa torácica bem levantada, o Diafragma abaixado em 10cm e você cantando aquelas linhas agudíssimas, sem se cansar, sem vacilar, sem precisar de reposição de laringe, sem aquela tosse que as vezes vem porque colocou força onde não devia... Minha amiga, cantar assim é como cantar no céu! Não tem mal humor, não tem rouquidão, não tem limite... a região 6 é o limite!